quarta-feira, 6 de junho de 2012

Dona Sebastiana, Dona sereia

 O mercado de peixes estava vazio, era de tarde e o cheiro forte ainda não tinha saído. Os barcos ancorados esperavam os pescadores que passariam a noite no mar puxando redes e mais redes. Andei um pouco mais reparando nas cores vivas dos barcos, os nomes pintados das prováveis mulheres, filhas e mães dos pescadores, as frases pedindo ajuda e agradecendo ao Deus daqueles homens.
 Perto de um desses barcos eu encontrei a Dona Sebastiana, achei sua figura interessante logo de cara. Pedi para ela se eu podia tirar algumas fotos, ela deu uma risada sincera e perguntou se eu não tinha coisa melhor para fotografar. Comecei a rir e disse que não, que ela era a melhor coisa que eu tinha para fotografar no momento, parece que ela gostou da resposta e deixou que eu me sentasse perto dela entre umas redes furadas e clicasse enquanto conversávamos. Ela me contou como tinha descido a serra e tinha escolhido Peruíbe para morar, sobre seu filho que era pescador e de como a vida na praia era sossegada. Me ensinou a escolher iscas e mexer no anzol, me disse os tipos de peixes que ficavam perto dos barcos só para comer as sobras e era desses que ela gostava, eu queria lembrar dos nomes mas infelizmente minha memória não permite. Ela até me contou como preparar alguns peixes e eu pensei em dizer que era vegetariana mas ela tava tão animada que eu simplesmente sorri e acenei com a cabeça enquanto ela falava que peixe na brasa pode ser simples mas era o melhor.
 Ficamos um tempo em silêncio, e eu perguntei se ela gostava daquela vidinha simples de praia. Ela me olhou com aqueles olhinhos moldurados por rugas e disse que já tinha visto muito da vida, mas que se pudesse ela teria gasto toda uma vida olhando o sol nascer e ser pôr no horizonte entre as ondas.
 Ela não respondeu se sim ou se não, mas eu acho que entendi a mensagem direito.
" É minha filha, parece que hoje  os peixes se esconderam, tudo bem, eu já como peixe todo dia mesmo" ela disse enquanto juntava suas coisinhas e se levantava. Ela meu deu um sorriso e pediu para ver algumas das fotos, enquanto eu mostrava eu senti o cheirinho dela, era uma mistura de água de colônia, gordura e sim, ela cheirava também a peixe. A última coisa coisa que lembro foi que eu queria dar uma abraço naquela senhorinha, mas me controlei, nem sei porque, eu devia mais é ter dado um abraço bem apertado nela. Enfim, ela foi por um lado me desejando boas férias e fui por outro desejando que ela tivesse ainda muito tempo para ver o sol nascer e morrer entre as ondas.

* Guardei esse texto e essas fotos desde as últimas férias, hoje enquanto eu mexia nos arquivos me deparei com ele e com a carinha da Dona Sebastiana. Sei que ficou meio longo, mas eu não podia deixar de compartilhar. Espero que nas férias que estão chegando eu encontre novas pessoas para fotografar, conversar e depois publicar aqui no blog. 

2 comentários:

  1. Que lindo post...Tão bom ver que existem pessoas que dão valor a pequenos detalhes ,(que na verdade são graaandes)e que na maior parte do tempo estão ali e a maioria das pessoas nem veêm ou sentem!!Que bom que tem a Dona Sebastiana pra nos ensinar isso e que tem a Hadassah para fotografar e nos mostrar!!Beijo, adoro seu blog e a maneira como vc fotografa a vida!!

    ResponderExcluir

Obrigada pelo comentário.
Só avisando que responderei a todos os comentários aqui mesmo.
E se você quiser que eu visite o seu blog, por favor avise.