sábado, 11 de agosto de 2012

Antes eu que não tinha nenhum, acabei me vendo rodeada por uma porção deles

 A Sônia, uma das internas,  me disse um dia: " menina você está de férias, vai sair com seus amigos! Não perca seu tempo com esse bando de velhos caducos". Eu ri, mas no outro dia estava de volta. Até porque eu não queria curtir as minhas férias como a maioria dos jovens da minha cidade costumam fazer. Eu  queria mesmo era jogar dominó com o João e sempre perder dele na dama, queria ver o sorriso lindo da Belinha e aqueles olhinhos azuis clarinhos olhando para mim. Eu não queria beber na praça, queria beber suquinho no copo de plástico enquanto ajudava a Dirce com a cadeira de rodas, eu não queria ir ao cinema preferia assistir Maria do Bairro com a Conceição e dançar com ela na abertura da novela e acompanhar a Janete na fisioterapia. A Sônia não entendia que eu queria conversar com a Ramira que  vivia mandando todo mundo tomar no cú, menos eu, porque ela dizia que gostava muito de mim para me mandar para aquele lugar. 
 Mas com o tempo ela começou a compreender que eu não estava lá para fingir uma certa caridade, eu estava lá por que eu realmente queria. Ela viu que eu aprendi todos os nomes, que sabia quase todas as histórias daqueles velhinhos, e mesmo a maioria esquecendo da mim toda vez que eu chegava e não conseguindo decorar o meu nome, eu estava lá por que era lá que eu queria estar. E no último dia quando fui me despedir ela me apresentou para um conhecido dela e disse: " Francisco, essa é uma amiga nossa,  a Hady", (Hadassah era complicado demais para ela. hahaha)  naquele momento me senti realmente parte da vida deles. 
 Foi naqueles poucos dias das  férias de inverno que acabei fazendo amizade com um monte de velhinhos cegos, surdos, ranzinzas, sofridos, que não podiam andar e que já não tinham mais as pernas ou os dentes, mas que ainda continuavam com o carinho e amor intactos. Obrigada meus novos avôs e avós postiços, já sinto a falta de vocês.
Essa é a Belinha, a Sônia acredita que ela vê espíritos de meninos que vagam pelo asilo. Ela não tem uma das pernas e tem o sorriso mais sincero que eu já vi. 
 O João campeão na dama!
 Todas as "meninas" do asilo são muito vaidosas, elas gostam de pintar as unhas e usar bijuterias.
 Sebastiana e suas bonecas.
O namorador do asilo, o Correia não dá mole não, hahaha. Toda vez que eu ia lá ele gostava de segurar minha mão e ficar me beijando na bochecha, todo mundo já sabe que ele é assim, então eu levava na esportiva.
 O Jonas tem 93 anos e é um ótimo palpitador no jogo de dominó. 
 Essa é a Miquelina, minha amiguinha favorita. Ela adora ler, e apesar de nunca ter frequentado a escola ela aprendeu sozinha. Fiquei encantada com a paixão dela pela leitura, acabei dando para ela o primeiro livro que eu li, sobre uma menininha que conhece missionários numa aldeia distante, eu amava esse livro. A Miquelina também gostou e assim que eu dei ela parou de falar comigo e começou a devorar o livro. Foi engraçado, fui trocada por um livro! Tudo bem, eu deixo, foi uma troca justa. 
 Esse é o Bina, ele não tem as pernas e é um dos mais falantes. Só tem um probleminha, ele fala enrolado demais e eu não entendo quase nada do que ele diz. É um sofrimento, uma vez eu ri justo na hora em que ele estava contando como tinha perdido as pernas, foi super chato. Agora eu aprendi, apenas aceno a cabeça e dou um sorriso leve.
 A Ramira foi abandonada pela família e ficou jogada nas ruas, chegou ao asilo parecendo um animal. Me doeu o coração quando ela me pediu para que ligar para o filho dela pedindo que ele viesse busca-lá. Me despeti e prometi que ia ligar, saí daquele quarto com tanta revolta, como pode haver filhos que fazem isso com os próprios pais? Claro que não liguei, até porque ninguém sabe o paradeiro dele.
 Essa é a Sônia aquela que no começo me achou louca por ficar no asilo e que no final acabou me aceitando como amiga. Olha a Belinha, cadê o sorriso hein? hahaha 
 Ah! Esse é o Lourenço o mais ranzinza de todos. Ele nunca esboça um único sorriso e vive reclamando da vida e das pessoas. Um dia fui conversar com ele e a enfermeira disse que duvidava que eu conseguiria tirar um sorriso dele. Eu decidi enfrentar a fera e depois de um tempo ele deu um sorriso bem de leve o primeiro de muito tempo, a enfermeira assutada chegou perto de mim segurou a minha mão e perguntou: " Menina o que você fez com ele?" eu não calculei bem as minhas palavras e disse: " Nada, apenas o óbvio. Se vocês pelo menos dessem uma abraço nele de vez em quando acho que ele sorriria mais". Ela me olhou com uma cara que não gostou eu dei de ombros e saí. É preciso muito mais que uma cara feia para me assustar.

12 comentários:

  1. Que sorriso mais gostoso da Belinha! Que demais a grande leitora Miquelina! Parabéns Hadassah! Gosto disso, ter uma ideia e ir fazer (: Lembro quando estava viajando em Minas na cidade da minha família e fui com uma amiga ajudar na festa do Asilo, cortamos batatas o dia todo e ouvimos muitas histórias! (:

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  2. Que lindo post! Me lembrou essa música e esse clipe: http://www.youtube.com/watch?v=fJys0KnUT28. Sou apaixonada por velhinhos, e planejo passar por uma experiência como essa logo, logo.
    Beijos!

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  3. Eu fiquei bobo de ver que ainda existem pessoas que se preocupam... Senhorita Inconstante, você é especial.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Vocês não sabem como essa troca de amor, sem esperar nada em troca sem se importar com as pequenas frustrações, é maravilhosa e enriquecedora!
    Gostaria que todos experimentassem essa experiência.
    Tudo que preciso é do amor, não dinheiro, não regras, nem tão pouco procurar me encaixar, apenas o amor me salva!!!!
    All you need is love!!!!

    PS: Gostaria que todos vocês que me leem provassem dessa alegria :D

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  6. Oi Hadassah, vim conhecer teu blog e acabei apaixonando.
    Li várias postagens, me identifiquei com muitas delas.
    Sei bem como é esse sentimento de amor, eu amava a companhia das
    minhas Avós, os Avôs não conheci; minhas férias passava com elas.
    Ouvia trocentas vezes as mesmas histórias extasiada.
    O importante é ser feliz, fazendo o que gostamos.

    Um excelente Domingo pra ti. bjs

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  7. Nossa Hadassah, que lindo. Lindas as fotos e mais lindas ainda as histórias.
    Uma vez, fui apresentar uma peça de teatro num lar do velhinhos da minha cidade, eu era bem menina ainda. Antes da peça começar, saímos buscá-los nos quartos, convidando, empurrando cadeiras de rodas, dando as mãos. Eu convidei duas senhoras, uma delas, eu fui descobrir logo após a peça que ela era cega: "Olhe menina, eu não vi nada, mas foi uma tarde muito agradável!", morri de vergonha e contentamento ao mesmo tempo.
    Bjos

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  8. Sua atitude é admirável... As vezes a gente não tem tempo nem pra nós mesmos, e você conseguiu dedicar um pouco do seu por pessoas que nem conhece... Te admiro muito.

    www.olacocorderosa.blogspot.com

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  9. Que lindo meninas! Fiquei muito feliz em ouvir as histórias

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  10. Admiro demais essa tua atitude, poucas pessoas fazem isso. Amei :D

    www.luaramendonca.blogspot.com

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  11. Me encantou a sua atitude... ficaria horas lendo e me emocionando... pena que acabou... Lindo momentos de amor com esses velhinhos! um beijo minha querida sobrinha

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  12. Este post me lembrou dos sábados que eu e a minha mãe íamos visitar os velhinhos da casa azul, hihi :)

    Era engraçado porque eles sempre estavam nos esperando. As "meninas" com esmaltes e maquiagem em mãos pra mim arrumá-las e os "meninos" com joguinhos, me desafiando :P

    Amei de ♥ o teu post e me emocionei com cada foto. Parabéns pela atitude, florzinha *.*

    Beijos mil

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Obrigada pelo comentário.
Só avisando que responderei a todos os comentários aqui mesmo.
E se você quiser que eu visite o seu blog, por favor avise.