sábado, 24 de novembro de 2012

Ela nunca mais manchou o azulejo do banheiro

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Sentada no canto do banheiro ela chorava, não sabia como resolver os problemas externos e muito menos como colocar no lugar a bagunça e desespero que sentia dentro de si mesma. Sua vida não estava desmoronando, ela sabia que era egoísta, tantos tinham problemas “reais” e ela estava lá se destruindo por causa de seus monstros, revoltas e torturas mentais.
Ela se machucava. Com os olhos embaçados pelas lágrimas ela via o sangue correndo pelo corte recém-aberto, não doía, pelo menos não tanto quanto a dor interna. E ela pedia mais forças, porque no fundo ela era fraca, muito fraca. O nó no estômago, o grito entalado na garganta davam mais forças para ela continuar. Ela não gritava se controlava, o único som que saia de seus lábios eram os soluços escondidos e assustados. Mas dentro dela milhões gritavam ao mesmo tempo, muitos a machucavam e a condenavam. Ela só queria fazer todos aqueles malditos monstros calarem a boca.
Quando as lágrimas pararam de rolar ela levantou-se abriu a torneira do chuveiro e ficou observando a água colorida de vermelho descer pelo ralo. Colocou o velho pijama xadrez, fez um chá, limpou o banheiro, tomou um remédio para dor de cabeça e deitou na cama. Não se permitiu pensar.  Leu um trecho do seu livro favorito, aquele de letras grandes e folhas finas. Sentiu-se em paz, eles não atormentavam mais, tudo estava quieto.
Ela sabia que depois de tudo teria que enfrentar o mundo e as pessoas. Teria que aceitar que a vida não era como nos seus livros favoritos, que nem todo mundo tinha coragem de ser diferente, que a maioria escondia seus medos e defeitos no armário e que durante o dia saiam na rua com uma fantasia de perfeita lucidez. Todos eles (inclusive ela) estavam entorpecidos, embriagados pelas mentiras e autocensuras.
Ela sabia que iam julgar, que iam ter pena, como se a dor dela fosse loucura ou capricho. Como se no mundo deles não coubesse alguém que lutava consigo mesma e que vez por outra saia machucada de verdade. Sabia que eles extravasam de outras maneiras, eles não conseguiam entender a intensidade daquilo tudo, não conseguiam entender aquelas feridas e cortes.
No fim de tudo era preciso esconder aquilo que era só dela. Arrependia-se de algumas confissões feitas, porque no final era sempre a mesma coisa; olhares de piedade, censuras, abraços que em nada podiam resolver. Ela não culpava ninguém, nem a si mesma. Só queria sair à luz do dia sem ter que dar explicações ou desculpas para esconder aquilo, que no final das contas fazia parte dela.
Mas teve um dia, um dia que no meio de uma luta o seu anjo sentou-se ao lado. Ele pegou as mãos dela, segurou firme enquanto envolvia seu corpo tremulo num abraço confortável e protetor. Ela parou por um instante, esfregou os olhos, não conseguia ver, mas sabia que era ele, simplesmente sentia sua presença. Parou de chorar, sentiu-se completa e protegida, os monstros com quem lutava se calaram  e sumiram. Ela sabia o que era aquilo, já havia sentido algumas vezes, mas agora era mais forte, dessa vez parecia ser definitivo. Não resistiu e se entregou. 
Não ouve mais manchas no azulejo, nem desculpas ou culpas. Não houve mais lutas, lágrimas escondidas ou condenação.  As cicatrizes sumiram, viraram manchas clarinhas. Hoje ela sai todos os dias sem colocar uma fantasia, não fingi ser normal e nem quer ser. Ainda trava suas batalhas, mas não está mais sozinha, agora tem um exército inteiro ao lado dela. E sorri, chora, cai, levanta e continua sem derramar uma gota de sangue, nunca mais manchou o azulejo do banheiro, nunca mais se sentiu vulnerável ou só.  

PS: Quer desabafar sobre qualquer coisa? Entre aqui e me conte, se liberte sem medos de julgamentos. Farei o máximo para responder a todos. 

5 comentários:

  1. Eu também me apego a algo que vai além de mim, para onde eu queria ir e não sabia como chegar.

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  2. Seu texto me comoveu ao extremo. Sério mesmo.

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  3. *-*
    Jesus
    It is finished.

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  4. Já me senti assim...mas o que dizer?!...bom só sei que me lembrei da música Clarice do Renato Russo...foi minha trilha sonora durante alguns anos...enfim, belo texto, soube expressar nas palavras os sentimentos verdadeiros...

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