domingo, 25 de novembro de 2012

Janine conseguiu sobreviver a Auschwitz

Era uma segunda-feira abafada e nublada em São Paulo, meu pai e eu havíamos acabado de sair da Santa Ifigênia  e conversarmos animados enquanto ele dirigia em direção ao shopping Pátio Higienópolis. Estacionamos o carro, entramos no elevador e em segundos estávamos rodeados de lojas e decorações natalinas. Ficamos observando as crianças que brincavam no piso inferior perto da imensa árvore de natal, esperamos até que o relógio marcasse 19:00 para começar a procurar a Livraria da Vila. Encontramos, e eu fiquei pensando que não havia lugar mais perfeito do que uma livraria ao lado de um café.
O auditório já estava lotado, pessoas das mais diversas idades, tive a sorte de encontrar um lugar na primeiro fila. Meu pai puxou papo com uma senhora simpática e elegante, Rita era seu nome. Depois de alguns minutos já estávamos conversando, ela contou sobre sua história na polônia durante a 2° Guerra Mundial. Rita não tinha ido para nenhum campo de concentração mas tinha visto os horrores dos guetos, inclusive já tinha passado raspando pelo muro de fuzilamento. Sentei ao lado dela enquanto Janine entrava e sentava no palco, Rita pegou na minha mão e disse bem firme "Preste atenção Hadassah , talvez você nunca mais veja um sobrevivente do holocausto. Estamos morrendo e nossa história, infelizmente, morre com a gente."
Janine mal conseguia segurar o microfone fraquinha mas lúcida, ainda tinha dificuldade com a língua e  confundia algumas palavras em português com o polonês. Começou dizendo que não ia falar sobre o holocausto, usou a desculpa que todo mundo já tinha ouvido falar muito sobre isso, disse que ia apenas contar sua história sem grandes detalhes dos campos. Disse que quando a guerra começou seu pai era oficial e teve que partir, deixando ela e sua mãe sozinhas. Os alemães ocuparam o apartamento de sua família, obrigadas a deixarem o seu lar se viram acomodadas no gueto da Cracóvia. Janine começou a trabalhar recolhendo lixo e varrendo as ruas. Uma noite Janine e sua mãe, junto com outras mulheres e crianças foram removidas do gueto, colocadas nuas em um trem e levadas para o campo Plasow, o mesmo da história de Schindler. Sua mãe acabou falecendo e Janine foi enviada para mais dois campos, Auschwitz e Bergen-Belsen. Sobreviveu por uma milagre, como ela mesma disse, por trabalhar em uma fábrica de papel ela acabou sendo poupada. Acostumada com a morte e muito doente, ela apenas sobrevivia, sem grandes esperanças. Com o final da guerra Janine se viu numa situação desesperadora, ela continuava em uma realidade de abandono e extrema pobreza. Com poucas ajudas ela acabou se reencontrando com seu pai que havia sobrevivido. Conheceu um dos soldados que havia lutado ao lado de seu pai, que também era jornalista, se apaixonaram. Casaram na Itália e conseguiram visto para o Brasil, que era o único país que estava aceitando refugiados, vieram para cá de navio e construíram suas vidas ( desculpem pelo resumo da história, juro que daria um livro!). 
Janine disse que nunca sentiu raiva dos alemães, inclusive foi várias vezes para o país. Ela disse que algumas pessoas a ajudaram durante todo o processo, e que essas pessoas era seus anjos, anjos reais enviados por Deus. Depois de uma hora e meia de conversa Janine recebeu uma salva de palmas enquanto as pessoas se aglomeravam ao redor para tirar fotos e cumprimentá-la. Fiquei no canto do auditório, digerindo tudo que eu havia ouvido. Imaginei todas as coisas horríveis que aquela frágil senhora havia passado, tanto sofrimento e dor. Mas mesmo assim lá estava ela, sorrindo, sem uma mágoa ou rancor, ela realmente era uma sobrevivente. Quando o tumulto passou me aproximei dela, disse meu nome e ela abriu um sorriso "Hadassah" ela repetiu. Dei um beijo naquela bochecha enrugada, ela me abraçou, agradeci pela oportunidade e tirei uma foto com ela. Saí e fui me despedir da Rita, que na verdade se chama Henriqueta, ela disse "Hadassah, quando nossos amigos saiam dos guetos eles diziam para nós que se sobrevivêssemos deveríamos contar a nossa história para o máximo de pessoas. Agora que você também já sabe, eu te dou uma missão, não deixe as pessoas esquecerem, para que algo assim nunca mais aconteça."
livraria e holocausto_2 cópia
Saí daquela livraria com a cabeça rodando e com uma puta vontade de chorar. Desci com meu pai até o subsolo e enquanto saímos do estacionamento prometi a mim mesma que não me permitiria esquecer, e a qualquer oportunidade contaria a história da Janine e da Rita, as duas senhorinhas que sobreviveram a uma das mais tristes guerras, mas que mesmo assim conseguiram encontrar forças para serem felizes e agradecidas. 

PS: Amanhã vai rolar outra palestra super legal com Michel Dymetman na mesma livraria. Ele vai contar um pouco sobre a participação dos franceses e belgas no holocausto. Quem estiver pelas redondezas pode aparecer no Shopping Pátio Higienópolis - Livraria da Vila. O endereço é: Av. Higienópolis , 618. As palestras começam às 19:30 mais informações aqui no site




5 comentários:

  1. Que lição para nós!!

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  2. Poxa, que história.
    Fiquei emocionada, gosto muito do seu jeito de contar as coisas, com palavras e imagens, me faz sentir como se estivesse lá na palestra também.
    E a gente aqui com problemas tão pequenos, né?

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  3. Que história linda, sensível. Estou segurando as lágrimas... Realmente, é uma história que não pode ser esquecida jamais! Que bela missão a sua, Hadassah!

    Beijos, Ana.

    www.olacocorderosa.com

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  4. Linda história Hady! Realmente é algo terrível que as pessoas passaram e que hoje em dia ninguém se lembra mais. Quando historiadores contam, não parece ser algo tão ruim, não tanto quando alguém que realmente presenciou aquilo conta. Um bejio querida!

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