segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Também Te Amo

Uma manhã dessas minha irmãzinha me acordou mostrando-me a nova pasta de dentes que havia ganhado da mamãe. Era da Barbie e toda cor-de-rosa. Disse empolgada que era sua favorita e que não ardia a boca. Deitada ao meu lado começamos a conversar sobre coisas aparentemente bobas, para nós adultos, mas de suma importância para crianças. Assuntos como, porque as folhas caem das árvores, bolos de chocolate e uma nova brincadeira que ela havia aprendido na escola. Às vezes prefiro papo de criança, papo de gente grande cansa e é sempre uma guerra de ego, “eu fiz isso, eu fiz aquilo, eu sou isso, penso assim”. Uma canseira que me dá, de mim mesma e dos outros. Ainda bem que tenho Eliza, com ela dá pra conversar de nuvem e de dragão que não existe, só na imaginação, mas que é real porque imaginação existe, sendo assim no final das contas ele ele também existe, só que em outra dimensão.
Enfim, mas a ondes estávamos mesmo? Me perdi no papo de criança que é tão envolvente que só de contar deixe a mente vagar. Ah sim! Me acordou e mostrou a pasta de dentes e deitada no meu colo disse que me amava. Eu toda boba me senti rainha, dona do coração da Eliza. Ela disse que me amava e toda vez que ouço isso de seus lábios me sinto especial. Um misto de orgulho e felicidade que dá por ter o amor de alguém pertencendo a mim. Coitada, isso que sou, acreditar que amor é assim, você é dono do coração de alguém. Acreditar que você ocupa um largo pedaço dele e que não tem espaço pra mais ninguém. 
Amor é coisa complicada, quando achas que já sabe de tudo vem algo pra te mostrar que não sabes é de nada. No caso Eliza me tirou das nuvens mais rápido que foguete e de um minuto para o outro caí da posição de rainha para a posição igualitária de uma pasta de dentes, “Hady te amo, mas também amo minha pasta, olha que bonitinha toda rosinha”. Olhei de canto para a pequena do meu lado e perguntei: “Eliza, você ama essa pasta, e eu?”. Assustada com a maneira repreensiva que eu perguntava ela parou e pensou. Colocou o dedinho na bochecha, forçou a carranca e numa feição de quem vai dar bronca disse: “Te amo, amo os dois, você e a pasta. Qual o pobema?”. E eu sendo adulta, me achando mais sabida tive que aceitar e concordar. Afinal qual era o problema?
Ela amava a pasta e a mim também, de maneiras diferentes eu sei, mas essa coisa de amor é assim. Não dá para querer ocupar um espaço muito grande no coração de alguém só porque você se considera merecedor. Amar é escolha da pessoa, é um sentimento pessoal e individual, não dá para palpitar ou dar regras. Se ela escolhe te amar e repartir o seu espaço com uma pasta de dentes o que resta é aceitar. Afinal isso não quer dizer que ela não te ama, mas que ela também te ama. O importante disso tudo foi que acabei aceitando que mesmo de maneira apertada e repartida eu tenho meu cantinho no coração de Eliza e isso já está de bom tamanho.


5 comentários:

  1. Irmã mais nova é um grande barato! Eu me deliciei com a minha caçula (tenho duas irmãs mais novas), agora que já são grandes, dedico estes pequenos momentos de amor à minha Filhinha de 4 anos....O tempo passa, só nos deixando estas lembranças...;) BJOS!

    http://diariodabrunet.blogspot.com.br/

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  2. Você já leu o conto A Menor Mulher do Mundo? É de Clarice Lispector e fala justamente dessa nossa natureza de possuir o outro e da natureza do amor que não cobra. Tem uma parte igualzinha a que sua irmã disse. Sério, leia! Muito bom. :) Me lembra um pouco dos níveis do amor platônico também, mas enfim, tô viajando já. Ótimo texto, como sempre.

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  3. As crianças são um amor! E a Eliza sempre me tira sorrisos com as histórias que você conta, ela parece tão sincera e espontênea =)



    http://milbaloesvoando.blogspot.com

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  4. Amei o texto Senhorita. É incrível como situações vistas como "simples" podem nos dar uma lição de vida não é mesmo?! Muito sábia sua pequena irmã Eliza!
    Gosto muito do seu cantinho, porém só hoje tive tempo de comentar!
    Mas juro juradinho aparecer por aqui mais vezes (:
    Até mais,
    BLOG Adriane Gomes

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